Às vezes, a minha mulher começava a queixar-se mais alto. Então, acelerava, dava solavancos nos carris dos eléctricos, ultrapassava automóveis que apitavam, passava por semáforos vermelhos. Depois, tinha automóveis à frente e não conseguia passar. Virava-me para a minha mulher e perguntava-lhe se estava bem. Olhava para o relógio, o tempo era muito rápido.
(...)
E chegámos à maternidade, corri para ela, e entrámos de braço dado, eu a puxá-la, ela pesada com dores, e eu a puxá-la. Dirigi-me a uma enfermeira e, antes de conseguir dizer alguma coisa, a enfermeira disse-me:
- Calma.
E levou-a. A minha mulher virou-se para trás para me ver sozinho, com os braços e com os olhos abandonados. E esperei. Olhava para o relógio. A manhã. A manhã com o tamanho de um verão. Toda a manhã. Olhava para o relógio. O tempo era muito lento.
(...)
Foi depois da hora de almoço que a enfermeira voltou a entrar na sala de espera e me disse:
- Então, não quer ir ver o seu filho?
Os meus pés deslizaram pelo chão de mosaicos, o meu corpo atravessou os corredores de paredes cinzentas e de lâmpadas quase fundidas, intermitentes, a falharem. Os meus olhos não viam nada. E entrei no quarto. De uma vez: a minha mulher deitada na cama a segurar o nosso Francisco nos braços. A sorrir com a vida. Caminhei mudo e lento até à cama. Não soube dizer nada. (...) Mais tarde, haveria de dizer tantas coisas. Naquele momento, não soube dizer nada. toquei a face do menino com as pontas dos dedos. Toquei a testa da minha mulher com os lábios. O tempo não existia.
(...)
E chegámos à maternidade, corri para ela, e entrámos de braço dado, eu a puxá-la, ela pesada com dores, e eu a puxá-la. Dirigi-me a uma enfermeira e, antes de conseguir dizer alguma coisa, a enfermeira disse-me:
- Calma.
E levou-a. A minha mulher virou-se para trás para me ver sozinho, com os braços e com os olhos abandonados. E esperei. Olhava para o relógio. A manhã. A manhã com o tamanho de um verão. Toda a manhã. Olhava para o relógio. O tempo era muito lento.
(...)
Foi depois da hora de almoço que a enfermeira voltou a entrar na sala de espera e me disse:
- Então, não quer ir ver o seu filho?
Os meus pés deslizaram pelo chão de mosaicos, o meu corpo atravessou os corredores de paredes cinzentas e de lâmpadas quase fundidas, intermitentes, a falharem. Os meus olhos não viam nada. E entrei no quarto. De uma vez: a minha mulher deitada na cama a segurar o nosso Francisco nos braços. A sorrir com a vida. Caminhei mudo e lento até à cama. Não soube dizer nada. (...) Mais tarde, haveria de dizer tantas coisas. Naquele momento, não soube dizer nada. toquei a face do menino com as pontas dos dedos. Toquei a testa da minha mulher com os lábios. O tempo não existia.
(José Luís Peixoto, "Cemitério de Pianos")
A eternidade não é o tempo sem fim, é a ausência de tempo!
2 comments:
engraçado como andamos pelos mesmos livros
a sério? engraçado mesmo!:)
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